Arquivo mensais:fevereiro 2015

Novas acusações a Dirceu expõe farsa do “mensalão”

Em 2005, a tática conservadora foi acusar sem provas José Dirceu e deixar o preconceito contra o PT fazer o resto; agora, em 2015, a tática é parecida, mas o jornalismo brasileiro – com a força da Internet – está diferente, e o progressismo está mais consciente de que o ataque ao PT é uma estratégia central do conservadorismo

Foto: José Cruz/Agência Brasil

Foto: José Cruz/Agência Brasil

Recentemente, em meio às acusações sobre corrupção na Petrobras, surgiu uma acusação contra José Dirceu. A princípio, essa acusação poderia prejudicar o PT, ao ligar as atuais denúncias ao caso conhecido por muitos como “mensalão”. Mas será que prejudica mesmo? Ou é ao contrário? Se essas novas denúncias sobre José Dirceu não forem comprovadas, as pessoas não vão se perguntar se de fato foram comprovadas as denúncias no “mensalão”?

E por que essa questão é importante para o PT? Porque é no tal “mensalão” que se concentra parte considerável do preconceito contra o PT – o antipetismo. Nessas últimas eleições presidenciais, inúmeras conversas entre quem apoiava Dilma e quem apoiava Aécio se desenrolavam com a argumentação, por parte de quem apoiava Dilma, da redução drástica da fome, da miséria e da pobreza, com Minha Casa Minha Vida, ProUni, Bolsa-Família, aumento no salário mínimo, etc. Muitas vezes, após todos esses argumentos, quem apoiava Aécio citava palavras como “mensalão”, “José Dirceu” e “Genoino” e considerava que estes “argumentos” sobrepujavam qualquer melhora da qualidade de vida do povo que tivesse ocorrido durante os governo de Lula e Dilma.

Até a crise política de 2005, que originou o termo “mensalão”, o PT vinha crescendo numericamente de forma consistente no parlamento nacional, eleição após eleição, tanto na Câmara de Deputados quanto no Senado. Quanto aos deputados federais, por exemplo, tinham sido eleitos 49 em 1994, 58 em 1998 e 91 em 2002. Após a crise política de 2005, o desempenho do PT nas eleições para o parlamento nunca mais alcançou o de 2002 (83 eleitos em 2006 e 88 em 2010), sendo que nessas eleições de 2014 o partido elegeu seu menor número de deputados federais desde as eleições de 1998, com 70 deputados. Nisso, teve influência também um outro fato bastante fomentado pelo “mensalão”, que foi a saída de vários parlamentares do PT rumo ao PSOL e outros partidos. Ou seja, o “mensalão” vem tendo considerável influência na atividade política do PT nos últimos anos.

E quanto à figura de José Dirceu? Por que seu nome especificamente está “na ponta da língua” de quem quer acusar o PT de qualquer coisa? E por que justo ele agora retorna como acusado nas denúncias sobre a Petrobras? É notório que ele atrai mais antipatia dos setores antipetistas que Genoino ou João Paulo Cunha, por exemplo, também citados no “mensalão”. Ou seja, além do fato de Dirceu ter sido 8 anos presidente do PT e de ser provavelmente o principal acusado do “mensalão”, parece haver outro fator que atrai para ele esse sentimento. Creio que aí se incluem alguns fatores da personalidade de Dirceu, sua forma de se relacionar com os meios de comunicação mais conservadores e sua relação com o público em geral. Mas isso não quer dizer que alguém acusado sem provas seja considerado automaticamente culpado. Isso seria preconceito não somente com José Dirceu, nem somente com o PT; simboliza o preconceito que acompanha a visão do conservadorismo sobre o progressismo na história do Brasil, passando pelo abolicionismo, a revolução de 1930, o suicídio de Vargas, o golpe de 1964, as eleições de 1989, a farsa do “mensalão” e mais outros episódios que virão, na trajetória do Brasil rumo ao futuro. Clique aqui para se tornar um colaborador financeiro do culturapolitica.info.

Não ao preconceito contra o PT

Um casal chega para jantar em um restaurante de classe média, e se senta em uma mesa. Alguns minutos depois, uma pessoa que está sentada em uma mesa ao lado, chama o garçom e diz: “Quero mudar de lugar porque não quero sentar perto dessas pessoas”, e indica a mesa em que está o casal mencionado. Estamos no sul dos Estados Unidos dos anos 60 do século XX e se trata de um casal descendente de africanos? Não, estamos em São Paulo no final de 2014 e se trata de um casal em que uma das pessoas veste uma camisa do PT

PT

Este início do século XXI está trazendo avanços civilizatórios globais em relação ao respeito às mulheres e à diversidade sexual, sem contar que o filho de um africano subsaariano é o presidente dos Estados Unidos. Os homens defendem cada vez mais os direitos das mulheres, os héteros defendem cada vez mais os direitos dos gays, os preconceitos de etnia e religião estão vindo à luz, como ficou claro em uma das maiores manifestações populares da história da Europa, que repudiou o ataque a um jornal que expunha os preconceitos, tirando-os das sombras e transformando-os em conceitos, estejam certos ou errados. Ou seja, o século XXI é o século do não aos preconceitos, esse é o tempo em que vivemos. Vamos dizer não também ao preconceito político, e isso, no Brasil atual, significa principalmente dizer não ao preconceito contra o PT. E por que isso?

Porque o PT concentra no Brasil um sentimento que, em política, costuma se concentrar sobre o grupo político que tem chances reais de chegar, ou chegou concretamente, a liderar o progressismo no comando do Estado. Acontece de forma muito semelhante com quem prefere o governo de Cristina Kirchner à oposição na Argentina, com quem apoia Ed Miliband, do Partido Trabalhista britânico, para se tornar o novo primeiro-ministro daqui a três meses, ou com quem defende Barack Obama das acusações do conservadorismo nos Estados Unidos. Assim, esse sentimento contra o PT é a expressão no Brasil do sentimento em escala global contra o progressismo, e por isso, independentemente de ter o PT como partido preferido no Brasil, cada progressista precisa entender que quando o PT é atacado de forma preconceituosa, o ataque não é só ao PT, mas a todos os setores progressistas, e que só se concentra no PT hoje porque o PT é o maior partido progressista do Brasil. Se amanhã for o PSOL, esse sentimento vai se concentrar no PSOL, se amanhã for o PCdoB, esse sentimento vai se concentrar no PCdoB, se amanhã for o Partido do Pégaso Azul, esse sentimento vai se concentrar no Partido do Pégaso Azul.

Inclusive, vejo frequentemente, especialmente desde a última campanha presidencial, análises de pessoas que preferem outros partidos progressistas ao PT que notam que os setores mais conservadores costumam criticar o PT não pelo que o PT teria de pior, mas justamente pelo que o PT teria de melhor, como os programas estatais que diminuem a pobreza. Então, você, progressista, quando ouvir críticas ao PT pelo que ele tem de melhor, saiba que essa crítica não é só ao PT, mas a você também, e só se concentra no PT porque é a “bola da vez” do progressismo.

Mas por que uso o termo “preconceito” para esse sentimento em relação ao PT? Acho importante esclarecer essa questão. Não é só a situação que comentei no início deste artigo, com o casal no restaurante. Vê-se o preconceito claramente quando surge qualquer denúncia de qualquer pessoa em qualquer meio de comunicação contra o PT, e já se veem muitas pessoas prontas para aceitar aquilo automaticamente como verdade. Isso indica que essas pessoas já aceitavam aquilo como verdade, mas como preconceito, ou seja, como pensamento inconsciente, uma vez que ainda parecem precisar da “confirmação” das acusações, independentemente de onde venham. É preciso trazer esse preconceito à luz, para que as denúncias contra o PT precisem de provas para serem aceitas como verdade pela sociedade e pelo Estado. Por isso, pela razão e a civilização, precisamos dizer agora #NãoaopreconceitocontraoPT. Clique aqui para se tornar um colaborador financeiro do culturapolitica.info.

Financiamento coletivo para campanhas políticas

Nem dinheiro de empresas nem dinheiro do Estado: agora é a hora de planejar campanhas eleitorais bancadas com dinheiro apenas de pessoas físicas – e com um máximo razoável por pessoa – para acabar com o desânimo nas forças políticas progressistas no Brasil

Fonte: Agência Brasil - http://commons.wikimedia.org/wiki/File:ABr17062013TMZ0029.jpg

Fonte: Agência Brasil – http://commons.wikimedia.org/wiki/File:ABr17062013TMZ0029.jpg

Com o resultado das eleições para a presidência da Câmara dos Deputados, está bastante claro que a trajetória histórica de crescimento do progressismo no parlamento brasileiro chegou a um estancamento. Na verdade, parece até ter havido um retrocesso rumo ao conservadorismo nessas últimas eleições de 2014. Não é o que ocorreu nas últimas décadas, quando os partidos mais progressistas foram ganhando espaço no parlamento nacional. É preciso enxergar que esse ciclo acabou, simplesmente. O PT e o PCdoB começaram claramente a diminuir no parlamento, e o PSOL, com 5 deputados federais na sua terceira eleição, não consegue fazer quase nenhuma diferença quantitativa. E como se fosse pouco, o PSB, que historicamente era um partido progressista, agora parece ter se tornado um partido conservador. Por que isso está acontecendo? O que fazer para reverter isso?

A avaliação de que o financiamento das campanhas eleitorais está no fundo desse processo é bastante comum hoje em dia, sendo que, por exemplo, o PT tem uma campanha bastante nítida pelo financiamento estatal de campanhas. Apesar disso, para o povo, essa proposta não “pega”, ou seja, o eleitorado não parece se empolgar muito com trocar o dinheiro das empresas pelo dinheiro do Estado para fazer campanha. Mas existe uma alternativa, o financiamento coletivo, e sem esperar que uma lei nos obrigue a fazer isso. Temos que implementar o financiamento coletivo nas campanhas por nossa livre organização. E o que significa isso? Significa que as candidatas e os candidatos podem tomar a iniciativa de somente aceitar recursos de pessoas físicas, e até um certo limite razoável por pessoa.

Muitas pessoas alegam que é muito arriscado para as forças mais progressistas parar de aceitar dinheiro de empresas para suas campanhas sem que a lei proíba as forças mais conservadoras de aceitar também. A prática mostra o contrário: é a aceitação de dinheiro de empresas que está afundando eleitoralmente as forças mais progressistas. Pode-se argumentar também que nas últimas décadas foi esse dinheiro de contribuições de empresas que permitiu ao progressismo vencer tantas eleições. Mesmo que isso seja verdade, esse vício no dinheiro de empresas está agora cobrando seu preço. Existe uma forma mais avançada de financiar campanhas, e sua implementação é urgente. Nem dinheiro de empresas, nem dinheiro do Estado; dinheiro da organização do povo.

O PT, o PSOL, o PCdoB, os setores mais progressistas do PSB e de todos os outros partidos têm a oportunidade de planejar com antecedência, a partir de agora (se é que não começaram já), campanhas com contribuições somente de pessoas físicas com um limite razoável por pessoa. Isso poderia devolver ao progressismo a trajetória de crescimento no parlamento. A esperança precisa ser resgatada na política brasileira, e para superar o desânimo precisamos de uma luz no fim do túnel. Espero que essa luz sejam as campanhas eleitorais financiadas voluntariamente pelo povo. Clique aqui para se tornar um colaborador financeiro do culturapolitica.info.