2ª prisão de Dirceu deixa claro que não existiu “mensalão”

O argumento essencial para alegar que o “mensalão” existiu é semelhante ao usado agora na segunda prisão de Dirceu (que não houve serviços realizados em troca do dinheiro); portanto, o público pode agora enxergar com clareza, nessa segunda prisão de Dirceu, o mecanismo usado na sua primeira prisão

Foto: Elza Fiúza/Agência Brasil

Foto: Elza Fiúza/Agência Brasil

A crise política de 2005, na qual alegou-se que o PT usava um “mensalão”, interrompeu uma trajetória continuamente ascendente do PT no panorama nacional, levando o partido não só a uma relativa estagnação eleitoral, mas até a uma certa retração, inclusive porque essa crise de 2005 levou uma parte do partido a ir para outros partidos, como PSOL, PDT e PSB. Ainda assim, mesmo relativamente estagnado eleitoralmente, os resultados alcançados pelo partido na gestão do Estado foram tão positivos que o PT conseguiu vencer 4 eleições nacionais seguidas encabeçando a presidência. Isso faz pensar se a trajetória eleitoralmente ascendente do PT não teria continuado se a alegação da existência do “mensalão” não tivesse sido aceita pela maioria do STF, o que ajudou a que uma parte considerável da população brasileira acreditasse que o “mensalão” de fato existiu. Será que o PT, que elegeu 93 deputados federais em 2002, não poderia ter eleito algo como 110 assentos em 2006, 140 assentos em 2010, e 180 assentos em 2014, por exemplo? Assim, se o “mensalão” não existiu, é importante trazer esse fato à luz.

Para isso, é muito didático observar a segunda prisão de José Dirceu, ocorrida nesta semana. Alega-se que ele não efetuou os serviços pelos quais supostamente recebeu dinheiro. É uma alegação semelhante à que sustentava a existência do “mensalão”, ou seja, a de que o dinheiro pago pelo Banco do Brasil não havia sido usado em campanhas publicitárias. Mas agora, nessa segunda prisão, está muito claro que basta Dirceu demonstrar que prestou os serviços, e a acusação contra ele não se sustentará. Da mesma forma, o fato das campanhas publicitárias terem sido efetuadas pelo Banco do Brasil mostra que não existiu “mensalão”.

É curioso que a tentativa de prender José Dirceu pela segunda vez pode acabar ajudando a esclarecer o erro de sua primeira prisão. E por que isso acontece? Porque há 10 anos, na acusação de “mensalão”, o panorama dos meios de comunicação no Brasil era muito mais conservador, porque a Internet naquela época tinha muito menos abrangência e influência. Hoje, muitos jornalistas e meios de comunicação relativamente progressistas no espectro político brasileiro podem levar informações para o público através da Internet e consequentemente o debate nacional consegue ser mais profundo, com a verdade vindo mais facilmente à tona.

O fato de não ter existido “mensalão” não significa que o PT seja um partido perfeito. Aliás, o PT tem um problema sério que é aceitar doações de pessoas jurídicas. Entretanto, nenhum partido no Brasil com assentos no parlamento (nem o PSOL, é bom frisar) deixou até o momento de aceitar doações de pessoas jurídicas. Assim, o PT, deixando de aceitar doações de pessoas jurídicas, tem a oportunidade de ajudar a política brasileira a se financiar de uma forma mais eficiente, que são as doações de pessoas físicas até um limite razoável. Quanto a essa história de “mensalão”, cabe ao povo brasileiro colocá-la no seu devido lugar na história do país, assim como fez o povo francês com o caso Dreyfus. Clique aqui para se tornar um colaborador financeiro do culturapolitica.info.