A influência da farsa do “mensalão” na relação PT-PSOL

É verdade que PT e PSOL têm diferenças políticas, especialmente quanto à política de alianças com os setores mais conservadores, ou mesmo em relação à função do Estado na economia; mas a forma como setores do PSOL internalizaram a narrativa conservadora da farsa do “mensalão” é talvez a maior dificuldade para um diálogo construtivo entre os dois partidos

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O PSOL, assim como o PT e o PCdoB, é um partido formado principalmente por pessoas visando fortemente o interesse coletivo, sem esquecer-se do legítimo interesse individual. Por isso, desse ponto de vista, esses três partidos são o cerne do progressismo partidário brasileiro. Porém, algo chama a atenção na relação entre esses partidos, especialmente na relação entre PT e PSOL. Esse algo é a raiva que, em geral, parece existir no PSOL em relação ao PT. A raiva nem sempre é algo necessariamente condenável, pois muitas vezes está ligada a boas intenções. Entretanto, dado o PT ser um partido fortemente progressista no espectro político brasileiro, chama a atenção o grau de hostilidade do PSOL em relação ao PT. Assim, este artigo se destina a tentar entender as causas, inclusive históricas, dessa hostilidade.

Uma causa bastante importante é o fato de que algumas das principais lideranças da história do PSOL, como as ex-candidatas presidenciais Heloísa Helena e Luciana Genro, foram expulsas do PT no episódio da reforma da previdência, em 2003. Além das duas, então senadora e deputada federal, respectivamente, também foram expulsos os deputados federais Babá e João Fontes. Uma vez que essa expulsão foi uma atitude exagerada e contraproducente do PT na época, é compreensível a raiva que deixou nas pessoas expulsas. Entretanto, esse episódio, apesar de importante, especialmente para o início do PSOL, não foi o suficiente para que o partido tivesse massa crítica para se consolidar no cenário político nacional. Quem deu essa massa crítica foi outro episódio, cujo impulso, mesmo sem esquecer dos erros do PT, veio principalmente do conservadorismo brasileiro: a farsa do “mensalão” iniciada com a crise política de 2005.

No início de 2005, o progressismo havia perdido a eleição para a presidência da Câmara dos Deputados, especialmente por um erro político do governo, e do próprio PT. Isso gerou uma fragilidade do governo na relação com o parlamento. Alguns meses depois, lembro nitidamente até hoje, vi que o conservadorismo, especialmente o presente nos meios de comunicação, estava acusando o ministro da Casa Civil, José Dirceu, de algum ilícito. Como desde criança sempre tinha ouvido acusarem o PT de qualquer coisa, pensei: “lá vem mais uma acusação…”. Entretanto, eis que José Dirceu comete o que sempre me pareceu um gigantesco erro político e renuncia ao cargo de ministro. O resto é história. Dirceu cassado pela Câmara dos Deputados, surgimento da acusação de desvio de dinheiro do Banco do Brasil, o momento em que se começou a chamar de “mensalão” o episódio mesmo que o “mensalão” nunca tenha sido provado, o que com toda a investigação que houve, indica na verdade que muito provavelmente não existiu. Nem o desvio de dinheiro do Banco do Brasil foi provado. O que houve aparentemente foi caixa 2 do PT. Até a maioria dos ministros do STF aceitou a teoria do desvio de dinheiro. Enfim, é história (que não acabou, pois ainda haverá a revisão criminal). Certo, mas o que isso tem a ver com o PSOL? Tem a ver que em 2005, quando ocorreu a crise política, vários parlamentares e personalidades do PT foram para o PSOL, como os deputados federais Chico Alencar e Ivan Valente, além de outros parlamentares de outras instâncias e militantes pelo Brasil afora. Aliás, nesse episódio não saíram pessoas do PT somente rumo ao PSOL, sendo que também para outros partidos, como o PDT. Em relação ao PSOL, foi aí que o partido se consolidou em termos de visibilidade e consistência política mínima no panorama nacional.

Bom, e nesse caso qual seria o problema? Pode-se alegar que o PSOL é um partido com uma identidade própria e que assim tem seu espaço na política brasileira. Isso é verdade, até aí tudo bem. Mas voltando ao mencionado no início do texto, o que chama a atenção é o grau de hostilidade do partido pode-se até dizer especificamente ao PT, e esse é o componente que dificulta especialmente um diálogo mais construtivo no progressismo brasileiro. E esse componente mal resolvido na relação PT-PSOL é a farsa do “mensalão”. Esclarecer esse episódio é importante inclusive porque as novas gerações do PSOL, que são pessoas que muitas vezes se interessaram mais fortemente por política depois de 2005, receberam a narrativa dos meios de comunicação mais conservadores em relação ao episódio (quando a Internet era muito menos influente) simplesmente como verdade, sem atentar para o fato de que a grande maioria das acusações contra o PT nunca se provou, inclusive aquelas pelas quais alguns petistas históricos estão presos. Essa “consonância” de parte do PSOL com o conservadorismo brasileiro em relação à narrativa da farsa do “mensalão” é provavelmente a principal dificuldade para que PT, PCdoB e PSOL formem uma grande e bonita frente progressista, financiada sem dinheiro de pessoas jurídicas, apenas com dinheiro de pessoas físicas até um máximo razoável. Cabe a nós brasileiros fazer essa retrospectiva para o passado recente e desfazer esse nó que tanto coloca em risco a continuidade do salto progressista do Brasil iniciado em 2003 (quando muitos amigos do PSOL eram do PT), que já acabou com a fome, a miséria mais extrema e está levando o país a deixar de ser um país pobre e se tornar um país de classe média, nem que seja classe média baixa. Levando em conta a história de escravidão, fome e miséria do Brasil, sem meias palavras, é uma revolução. Vamos continuá-la, PSOL, junto com vocês. Clique aqui para se tornar um colaborador financeiro do culturapolitica.info.