O progressismo roda, roda, e volta pro PT/PCdoB

Recentemente, dois ex-candidatos presidenciais do PSOL, Heloísa Helena e Randolfe Rodrigues (que foi escolhido pelo PSOL para as eleições de 2014 e desistiu, abrindo espaço para Luciana Genro), ou seja, políticos bastante representativos do partido, deixaram o PSOL e foram para a Rede, partido liderado e inspirado por Marina Silva, a qual apoiou o candidato do conservadorismo no segundo turno das eleições presidenciais de 2014

PT-PCdoB

O Brasil passa por mudanças estruturais importantes em sua dinâmica política e partidária. Partidos são criados, frentes são lançadas, movimentos sociais surgem, se fortalecem e se lançam à disputa política. Entretanto, há uma estrutura por trás de tudo isso que norteia este processo: o espectro progressismo-conservadorismo. É neste espectro que o jogo de forças se prepara para o sistema de chegada ao poder atualmente em vigor: a democracia. Por mais que as unidades de poder de base não territorial tenham sua influência, a unidade de poder de base territorial (o Estado) ainda tem um poder extraordinário, e a forma de chegar ao poder no Estado brasileiro são as eleições de sufrágio universal, com um voto por cabeça e decisões por maioria. E quem disputa as eleições no Brasil, hoje, são os partidos políticos e seus candidatos, pois não são permitidas candidaturas sem partido.

Assim, por mais que meios de comunicação, movimentos sociais, empresariado e outras forças tenham influência, durante o processo eleitoral essa influência é canalizada para os partidos políticos e seus candidatos. Por isso, para compreender mais profundamente os movimentos políticos no Brasil, é preciso correlacionar a estrutura do espectro progressismo-conservadorismo com o quadro partidário brasileiro. Sem isso, não há como se orientar adequadamente no processo eleitoral e na disputa do poder no Estado. E quanto ao processo eleitoral, ele não acontece só no dia da eleição, a cada dois anos, ou mesmo durante a campanha eleitoral. O processo eleitoral é contínuo, na cabeça das pessoas, nos meios de comunicação, no interior dos partidos e em todos os lugares onde se discute política, seja no bar, seja no trabalho ou em qualquer lugar.

Quais seriam então os partidos mais progressistas do Brasil com um mínimo de representação popular? Nas primeiras décadas a partir da redemocratização, a resposta “PT e PCdoB”, como o claro núcleo do progressismo brasileiro, esteve na ponta da língua. De alguns anos pra cá, porém, outro partido, o PSOL, passou a se perfilar como mais um representante do progressismo mais avançado do país. Na verdade, a intenção do PSOL foi mais além, tentando retirar do núcleo do progressismo o PT e o PCdoB para substituí-los nessa região do espectro político. O tempo está mostrando que o PSOL não é adequado para isso. Primeiro, porque o maior erro político do PT e do PCdoB, que foi especialmente a partir da década de 2000 aceitar dinheiro de pessoas jurídicas para financiar suas campanhas, também foi cometido pelo PSOL. Segundo, porque o PSOL não mostrou consistência ideológica mais progressista que o PT e o PCdoB, e uma forte evidência disso é que dois de seus ex-candidatos presidenciais, Heloísa Helena e Randolfe Rodrigues (que foi escolhido pelo PSOL para as eleições de 2014 mas desistiu, abrindo espaço para Luciana Genro), ou seja, políticos bastante representativos do partido, acabaram de ir para a Rede, partido liderado e inspirado por Marina Silva, que apoiou o candidato do conservadorismo, Aécio Neves, nas eleições presidenciais de 2014.

Evidentemente, o PSOL é um partido com um forte componente progressista. Mas o ódio ao PT compromete continuamente este componente, ajudando a ocultar o componente conservador do PSOL, que cada vez mais vem à luz. Outros partidos do Brasil também têm um componente progressista, em maior ou menor medida, como o PDT, o PSB e a própria Rede. A rigor, todo partido tem um componente progressista, por menor que seja. Mas existem partidos que concentram as ideias progressistas, as quais têm clara predominância dentro desses partidos. Hoje em dia, os partidos com os quais o progressismo brasileiro pode contar são o PT e o PCdoB. O PSOL também seria um deles, se não odiasse virulentamente o PT, abrindo caminho em si mesmo para o conservadorismo oculto. Nos outros partidos, as ideias progressistas têm mais dificuldades de se fazer valer, em uns mais, em outros menos.

Por que o PT e o PCdoB mantêm através das décadas essa característica? O PT tem duas coisas que nenhum outro partido expressivo no Brasil tem: eleições internas diretas para seus dirigentes e candidatos, e o maior líder popular da história do Brasil, Lula. O PCdoB tem, para se proteger ideologicamente, a sua hierarquia, mas isso tem um custo para o partido, que é a restrição ao seu crescimento. Entretanto, é um preço que o PCdoB aceita pagar, e lhe permite ser um importante representante do progressismo brasileiro. Agora se abre uma nova fase na política brasileira, pois com a multiplicação de partidos, a formação de frentes é praticamente inevitável. PT e PCdoB já deram um importantíssimo passo nesse sentido, a formação da Frente Brasil Popular (FBP), que fará um ato nacional neste sábado (03/10) em todo o Brasil em defesa da democracia, dos direitos do povo brasileiro sobre o petróleo em seu território e por mudanças na política econômica. Essa frente, que também é integrada por uma série de movimentos sociais, como MST, CUT e UNE, na estrutura do espectro progressismo-conservadorismo, se coloca para ser uma força claramente progressista no panorama nacional, preparando-se para os processos políticos que virão nos próximos meses, anos e décadas. Porque os partidos vêm e vão, mas o progressismo e conservadorismo estão sempre aí, procurando os partidos políticos que os representem. E o progressismo, que já esteve firme com o PT e o PCdoB, começou a olhar para os lados na última década. Teve esperanças com o PSOL, mas este ainda não conseguiu superar o infantilismo (ou conservadorismo, dependendo do caso) do ódio ao PT e assim abriu caminho para o conservadorismo em seu interior e em sua prática, que agora está ameaçando o PSOL de fazê-lo perder sua identidade progressista. O progressismo olhou para o lado também para o PSB, de Miguel Arraes, que uma vez assumido por seu neto, Eduardo Campos, iniciou uma caminho gradual no espectro político rumo ao conservadorismo. Com a morte de Eduardo Campos, esse caminho se acelerou, e o partido apoiou o candidato do conservadorismo nas eleições presidenciais de 2014. Outro momento em que o progressismo olhou para o lado foi quando Marina Silva se candidatou a presidente em 2010, não apoiando ninguém no segundo turno e propondo o lançamento de um partido, a Rede. Infelizmente, em 2014, Marina assumiu uma candidatura presidencial que nem ela esperava, em vez de segurar a onda e deixar que uma pessoa tradicional do PSB assumisse a candidatura no lugar de Eduardo Campos, permanecendo ela como vice. Esse seu movimento conservador se confirmou no apoio ao candidato do conservadorismo, Aécio Neves, no segundo turno. Agora, Marina tenta retomar o antigo caminho do progressismo criando a sua Rede. Mas ela vai ter que chegar ao progressismo partindo do conservadorismo, e depois dos episódios de 2014, é difícil que chegue.

Eu gostaria muito que um partido político no Brasil fosse mais progressista que o PT e o PCdoB. Eu gostaria muito que, antes do Judiciário proibir as doações de pessoas jurídicas, um partido político minimamente influente tivesse tomado a iniciativa de não aceitá-las voluntariamente, o que o PT e o PCdoB não fizeram. Mas não houve nenhum partido que fez isso. Eu gostaria muito que um partido político tivesse instituído eleições prévias abertas a todas as pessoas para a escolha de seus candidatos, como PT e PCdoB não fizeram. Mas não houve nenhum partido que fez isso. Ou seja, eu gostaria muito que houvesse partidos mais progressistas no Brasil que PT e PCdoB. Mas a realidade mostra que não há. Portanto, PT e PCdoB e quem mais vier, vamos em frente com a Frente Brasil Popular, rumo ao futuro! Clique aqui para se tornar um colaborador financeiro do culturapolitica.info.