O ódio ao PT levou a turma de Cunha ao poder. E você ajudou.

Ao longo da história, este fenômeno sempre ocorreu: utilizando e fomentando o ódio a um determinado grupo, os setores mais conservadores da sociedade se colocam como alternativa a este grupo, e o povo, enfurecido contra tal grupo, aceita qualquer coisa no lugar. Qualquer coisa. É nesse ponto em que estamos. O Brasil está aceitando qualquer coisa no lugar do PT, assim como no início do século XX a Alemanha e a Itália aceitaram qualquer coisa que não fossem os socialistas.

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Bom, finalmente chegamos ao momento em que o progressismo vai ser substituído pelo conservadorismo no poder no Brasil. A questão é que não é qualquer conservadorismo que está chegando ao poder. Não é Aécio Neves. Não é Marina Silva. Não é alguém como o argentino Macri. Não é alguém que venceu uma eleição presidencial. Pelo contrário: é alguém que todo mundo, sem exceção, sabe que nunca venceria uma eleição presidencial. E quem vai ser vice-presidente e presidente da Câmara dos Deputados, consequentemente com imenso poder no governo federal? Eduardo Cunha, um dos políticos mais conservadores de todo o Brasil. Como o Brasil conseguiu essa “proeza”? A resposta é amarga e difícil de ser aceita como verdadeira por muita gente, mas que precisa ser dita, alto: a culpa foi do ódio ao PT.

Sim, nos últimos anos ficou chique caçoar do PT. Ficou chique criticar raivosamente o PT em público, por direita e por esquerda. Dizer que o PT se vendeu às grandes empresas, porque aceitava suas doações nas campanhas eleitorais. Claro que o fato do PCdoB e do PSOL também aceitarem dinheiro de grandes empresas em suas campanhas não os tornava também “vendidos”, porque o chique era falar mal só do PT. Afinal, a rede Globo não fala mal praticamente só do PT? “Vamos aproveitar e descer o cacete no PT que vamos ter o apoio de todo mundo em volta!”. Claro que foi um erro o PT aceitar doações de grandes empresas para suas campanhas. Mas o fato justamente do PCdoB e do PSOL também terem aceito mostra o quão avassaladora era essa tendência entre os setores mais progressistas do país.

“Ah, mas o PT fez aliança com os conservadores, se vendeu.” Alianças com os setores mais conservadores costumam ser necessárias na democracia. O tal Syriza, partido grego em geral muito querido por quem critica o PT à esquerda, a primeira coisa que fez após as eleições foi se aliar a um partido conservador para ter maioria no parlamento. E fez muito bem. Grande Syriza. Fez que nem o PT. Grande PT. Uma salva de palmas para o partido que fez uma revolução social no Brasil em 13 anos. Assim como foram necessários quase 40 anos entre o adeus ao governo de João Goulart em 1964 e a volta do progressismo ao poder com Lula, em 2003, vai saber quantos anos vamos ter que esperar agora.

Claro que o PT cometeu vários erros. Além de aceitar dinheiro das grandes empresas para as campanhas, houve esse total fracasso de abdicar de indicar o Procurador-Geral da República (PGR), e deixar que os concursados, e não os representantes democraticamente eleitos, escolhessem o PGR. Outro erro grave foi abdicar de escolher juízes necessariamente progressistas para o STF, em prol dos “tecnicamente melhores”, sabe-se lá com que critério, porque o juiz tecnicamente melhor é o que cumpre mais a lei, e quem cumpre mais a lei são os juízes progressistas. Mas esses erros são incomparavelmente menores do que o de quem diz que o PT é tão ruim quanto os partidos conservadores, como o PSDB. Mas é a vida, foi bom enquanto durou. Clique aqui para se tornar um colaborador financeiro do culturapolitica.info.