PT, por favor, não acabe com o PED

Sempre encho a boca e digo como argumento favorável ao PT: “o PT é o único partido do Brasil que tem eleições diretas dos filiados de base para a direção municipal, estadual e nacional”; meu argumento pode estar chegando ao fim, se o PED (Processo de Eleições Diretas) acabar no 5º Congresso Nacional do PT, entre 11 e 13 de junho

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Há um movimento dentro do PT para acabar com o PED (Processo de Eleições Diretas) no 5º Congresso Nacional do PT, a ser realizado de 11 a 13 de junho deste ano, em Salvador (BA). Entretanto, sempre que ouço os principais argumentos para se acabar com o PED, percebo que sem o PED, os problemas apontados continuariam existindo. Ou seja, critica-se muito o PED dizendo-se que há manipulação do voto dos filiados de base. Mas, ué, sem o PED, os filiados de base não vão continuar votando? Então essas manipulações não podem continuar existindo como agora? O que percebo é que o PED não cria os problemas, e sim dá visibilidade a eles. E dando-lhes visibilidade, facilita sua resolução. Se o PT acabar com o PED, o que vai fazer é varrer os problemas para baixo do tapete, sem acabar com eles. Assim, além de não resolver os problemas, acabar com o PED vai acabar com as coisas boas do PED. E quais são elas?

Se o PED acabar, o filiado de base do PT provavelmente só votará na esfera municipal. Imaginem um sistema assim proposto para o povo brasileiro. O povo brasileiro só votaria para algo como um vereador. Esses “vereadores” escolheriam as assembleias legislativas estaduais, que escolheriam os governadores de estado. As assembleias legislativas estaduais escolheriam o Congresso nacional, que escolheria o presidente da República. Assim, o povo brasileiro votaria só para essa espécie de vereador. Como um eleitor pode pensar o Brasil votando só nesses vereadores? Algo semelhante vale para o filiado de base do PT, se o PED acabar.

Mas se acabar com o PED apenas tira visibilidade dos problemas, sem acabar com eles, como realmente enfrentar os problemas do PED? Ou seja, como melhorar o PED? Aumentando exponencialmente o debate interno e a visibilidade desse debate interno para os filiados de base, elevando-se o grau de consciência dos filiados de base e o nível político do PED, dificultando assim eventuais tentativas de manipulação dos filiados de base. E como fazer isso? Com meios de comunicação de massa dentro do PT. O PT vive reclamando, com razão, da visão distorcida e conservadora da realidade da grande maioria dos meios de comunicação de massa no Brasil, fora do PT. Por isso, o melhor que o PT poderia fazer é, dentro dele mesmo, até para servir de exemplo, estruturar um sistema de meios de comunicação de massa para fazer o debate interno. O PT é um partido na casa do milhão de filiados, e tem todas as condições de ter meios de comunicação de massa para o debate interno, até porque com a Internet, o custo desses instrumentos se reduziu muito.

Eu li o texto do Patrus Ananias em que ele defende o fim do PED. Ele diz que sem o PED voltarão a existir aqueles eventos em que, por exemplo, o Olívio Dutra declamava poemas gauchescos e o querido Marcelo Déda mostrava seus dons musicais. Mas é justamente para realizar estes grandes eventos que os meios de comunicação de massa dentro do PT seriam essenciais, possibilitando um grande debate interno que chegasse aos filiados de base e conseguisse mobilizar o partido para construir um alto nível de conscientização das estruturas partidárias para que resistam o máximo possível a qualquer prática manipuladora. Temos que juntar as duas coisas: a garra e o calor humano do passado, quando o partido era muito menor, com a participação direta do milhão e quem sabe dos milhões de filiados do PT do presente e do futuro. Não devemos varrer os problemas para baixo do tapete, acabando com o PED, e sim melhorar o PED, e um grande impulso para isso seriam meios de comunicação de massa dentro do PT. Clique aqui para se tornar um colaborador financeiro do culturapolitica.info.

Uma ideia sobre “PT, por favor, não acabe com o PED

  1. Ari Fernandes

    Estou entre aqueles que defendem o PED, mas aberto às argumentações dos dois lados. O companheiro Nicolas traz novos argumentos a favor e eu concordo: os problemas do PT aparecem no PED. Talvez o maior de todos seja o governismo pragmático, uma espécie de “se hay gobierno, quiero empleo”. Somado ao poder dos mandatos que deixam de ser do partido para ser da corrente, o problema se multiplica. Ao mesmo tempo cresce o número de filiados que fazem carreira meteórica. Após meia dúzia de falas em eventos partidários e as graças de um padrinho chegam ao cargo no governo e dele só saem para outro melhor. Vai longe o tempo em que as indicações para um cargo de confiança eram definidas pelas instâncias partidárias. E exercê-lo com dedicação não bastava; tinha que prestar contas frequentes ao partido. E, fora do horário de trabalho, redobrar a participação militante, amassar barro na base.
    Acho um erro incluir no PED as delegações para eventos nos quatro anos do mandato da direção. Aí sim, o método de defender teses, votá-las e definir delegados a cada Encontro ou Congresso na proporção dos votos dados a cada tese parece ser mais correto. E separa o verdadeiro empenho militante do oportunismo e do pragmatismo governista.

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