A perda de influência relativa da mídia conservadora

A ditadura militar acabou nos anos 80, mas deixou uma estrutura nos meios de comunicação que somente pouco a pouco vai perdendo sua influência relativa; ainda hoje, essa estrutura conservadora na mídia é muito forte, mas tem bem menos poder que 10 ou 20 anos atrás, tendo que disputar a narrativa com uma mídia progressista, que existem sim

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Quantas vezes não estamos conversando com alguém e percebemos que a pessoa está tomando como verdade uma afirmação que viu em algum meio de comunicação bastante conservador? O que fazer nessas horas? Pode-se argumentar para a pessoa que tal afirmação não corresponde à realidade, mas as pessoas em geral têm relações emocionais com as suas fontes de informação. Elas vão construindo essas relações emocionais ao longo dos anos. Algumas décadas atrás, a situação era tão calamitosa nesse sentido que “passar na TV” significava “ser verdade”, lembram? Hoje em dia não é assim de forma generalizada, é um avanço que precisamos reconhecer.

Também houve uma época, antes do boom da internet no Brasil, que uma pessoa politicamente progressista que, por exemplo, votasse em geral no PT, praticamente não tinha à disposição meios de comunicação que, nas eleições, não preferissem, assumidamente ou não, as candidaturas conservadoras. Com algumas exceções, é claro, mas exceções proporcionalmente com muito pouco alcance na população. Era bizarro. Tanto que foi criado um “Movimento dos Sem-Mídia”, que fazia todo sentido, apesar de ser uma situação engraçada ter que criar um movimento com esse nome.

Entrentanto, essas exceções progressistas nos meios de comunicação de antes do boom da Internet de fato foram importantes, com revistas, pequenos jornais, rádios e TVs comunitárias ou não, e meios de comunicação do Estado de governos progressistas municipais, estaduais e federal. De fato, quando a Internet explodiu no país, revolucionando o setor da mídia, essas exceções progressistas foram um ponto de partida importante. Mas as transformações que a Internet possibilitou na correlação de forças do espectro político da mídia no Brasil foram muito além das exceções anteriores. Surgiu, especialmente de 10 anos para cá, um polo comunicacional claramente identificado com o progressismo e com considerável alcance social e popular. Esse polo agregou as exceções progressistas anteriores com, talvez surpreendentemente, uma profusão de ex-profissionais progressistas da mídia conservadora que encontraram na Internet uma possibilidade de fazer um jornalismo mais próximo de suas convicções pessoais.

Esses dois fatores (as exceções progressistas da era pré-Internet e os ex-profissionais progressistas da mídia conservadora), ao se lançaram à Internet, encontraram um elemento que catalisou extraordinariamente o processo: as redes sociais. Foi (e é) uma festa. Sites jornalísticos progressistas pequenos viraram grandes rapidamente, organizaram-se entidades de mídia progressista e até um encontro periódico nacional/estadual, o Encontro Nacional/Estadual de Blogueiros e Ativistas Digitais. Hoje em dia, Presidentes da República progressistas dão entrevistas a este setor da mídia, partidos políticos têm muito mais facilidade para criarem instrumentos de mídia on-line e diretamente fazerem parte do espectro dos meios de comunicação, e o debate político nacional dificilmente passa à margem de ser pelo menos influenciado consideravelmente pela mídia progressista. Mas o processo está só começando. Qual é o próximo passo? No fundo, todo mundo sabe qual é: encontrar meios de financiar massivamente o trabalho na mídia progressista. Só assim a estrutura de mídia deixada pela ditadura militar vai deixar de atrasar significativamente o avanço do Brasil e passar a ser basicamente um capítulo interessante dos livros (on-line ou não) de história do país. Clique aqui para se tornar um colaborador financeiro do culturapolitica.info.