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Se o STF concluir pela inexistência do mensalão, vai se tentar o golpe?

Tal posicionamento do STF derrubaria um grande dique eleitoral contra o progressismo no Brasil, o que reduziria as chances de vitória em eleições do conservadorismo, e parte deste pode acabar tentando um golpe de Estado, talvez ao estilo da Ucrânia

04/11/2014 - Quando Lula assumiu a presidência, em 2003, houve grande expectativa em relação aos resultados concretos do período progressista que se iniciava. Se este não tivesse sucesso quanto à melhoria do padrão de vida brasileiro, o conservadorismo poderia voltar rapidamente ao poder pela via eleitoral. O que se verificou, pelo contrário, foi um enorme sucesso das políticas econômicas, sociais e diplomáticas do governo progressista, reduzindo drasticamente a fome, a miséria e a pobreza e levando o Brasil a outro patamar de desenvolvimento. Seria de se esperar que, com isso, o progressismo brasileiro não encontrasse grande dificuldade para vencer o conservadorismo nas eleições presidenciais subsquentes.

O resultado da última eleição presidencial, na qual Dilma Rousseff teve 51,64% dos votos e Aécio Neves 48,36%, mostra que isso não aconteceu. Parte relevante disso ocorreu pelo fato da maioria dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) ter aceitado como verdadeira a acusação de desvio de dinheiro do Estado e de compra de votos no parlamento que acabou levando os petistas José Dirceu, José Genoino, João Paulo Cunha e Delúbio Soares a serem condenados por esta corte, apesar de terem sido inocentados por ela de formação de quadrilha e, no caso de João Paulo Cunha, de lavagem de dinheiro. A posição do STF foi bastante relevante porque antes dela, as acusações contra os petistas, apesar de veementes, eram apenas acusações, não sentenças do Judiciário.

Para uma parte considerável do eleitorado, há uma clara diferença entre uma situação em que os meios de comunicação mais conservadores ou a oposição política fazem uma acusação de corrupção, e uma situação em que o STF a aceita, pelo menos parcialmente, como verdadeira. Por isso, se na revisão criminal, nos próximos anos, o STF concluir que o mensalão e o desvio de dinheiro do Estado não existiram por parte desses petistas, esse eleitorado poderá modificar seu entendimento geral sobre o PT, no sentido de perceber que essa acusação tão repetida contra o partido pareceria não ser verdadeira. Essa nova situação, somada à continuidade da elevação do padrão de vida do povo brasileiro durante os governos progressistas de Lula e Dilma, ambos de coalizões encabeçadas pelo PT, faria com que o progressismo aumentasse ainda mais sua força eleitoral.

Nesse caso, o conservadorismo brasileiro teria sua perspectiva de vitória eleitoral muito reduzida. A tendência poderia ser que parte do conservadorismo se lançasse para a tentativa de um golpe de Estado. Dada a experiência de fevereiro deste ano na Ucrânia, é possível que a tentativa de golpe de Estado se dê através de um processo semelhante, com manifestações de rua em que possa acabar ocorrendo violência. É possível também que as Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro, entrem nesse contexto no sentido de atrair atenção internacional, especialmente se a tentativa de golpe dificultar a realização das Olimpíadas. Enfim, talvez chegue a hora em que cada brasileiro e cada brasileira tenha que decidir se quer um país com democracia ou não. Nos últimos 15 meses, Ucrânia, Egito e Tailândia, países de média influência mundial, tiveram seus governos democraticamente eleitos derrubados por golpes de Estado. Agora, o próximo passo da resistência à democratização mundial é um país de grande influência global, o Brasil. Clique aqui para se tornar um colaborador financeiro do culturapolitica.info.


Após 38 anos de conservadorismo, progressismo chega a 16 anos

Desde o golpe de Estado de 1964 até o início da presidência de Lula em 2003, o país teve predomínio político conservador; com esta vitória de Dilma Rousseff, o progressismo alcança 16 anos contínuos de predomínio político no Brasil

29/10/2014 - Muito se falou nesta eleição presidencial sobre a disputa PT x PSDB, mas existe uma outra disputa mais influente que esta, na qual PT e PSDB são apenas os principais partidos de campos mais amplos. Trata-se da disputa entre progressismo e conservadorismo. Ao conservadorismo convém tratar somente da disputa PT x PSDB, pois assim o argumento da alternância compulsória de poder lhe serve; afinal, com esta vitória, o PT encabeçará com a presidência a coalizão progressista por 16 anos seguidos. Já a consciência da disputa entre progressismo e conservadorismo, do ponto de vista do argumento da alternância compulsória de poder, conviria, em um olhar mais superficial, ao progressismo, já que conservadorismo ficou 38 anos no predomínio da política brasileira (desde o golpe de Estado de 1964 até o início da presidência de Lula em 2003), enquanto que o progressismo está há muito menos tempo no predomínio da política brasileira, tendo conseguido agora uma vitória eleitoral que lhe permite chegar a 16 anos nesta situação.

Entretanto, uma análise mais profunda indica que a alternância compulsória de poder não é uma característica da democracia; o que é sim uma característica da democracia é a possibilidade eleitoral da alternância de poder. Assim, na democracia, periodicamente o povo tem essa possibilidade de alternar ou não a região do espectro político que encabeça o Estado. Assumir como desejável a alternância de poder (e não a possibilidade eleitoral de alternância de poder), levaria a uma redução da qualidade da democracia, pois os eleitores e eleitoras, independentemente de sua avaliação sobre qual setor do espectro político lhe parece mais progressista, podem se sentir compelidos a votar contra sua própria opinião, o que só pode favorecer o conservadorismo.

Portanto, mesmo que no curto prazo a ampliação da perspectiva histórica faça o argumento da alternância compulsória de poder favorecer o progressismo (pois seriam 38 anos contra 16 anos), no médio e no longo prazo este argumento favorece o conservadorismo, pois sempre chegará o momento em que o conservadorismo afirmará que o tempo de predomínio progressista já se igualou ao predomínio conservador anterior, e que portanto já seria hora de voltar ao predomínio conservador. Assim, vê-se que o argumento da alternância compulsória de poder é essencialmente conservador, o que vale inclusive para as tentativas de acabar com a possibilidade de reeleição e mesmo para a atual limitação no Brasil a uma reeleição para cargos executivos. A característica da democracia da possibilidade eleitoral de alternância do poder implica em que a alternância de poder deve ser apenas uma possibilidade eleitoral, cabendo apenas ao povo escolher se essa possibilidade se realiza ou não, em qualquer eleição e independentemente do número de mandatos cumpridos pela pessoa até o momento. Clique aqui para se tornar um colaborador financeiro do culturapolitica.info.


Existe uma eleição dentro de cada um de nós

A disputa entre progressismo e conservadorismo não ocorre só nas urnas, mas também dentro de cada pessoa; a maior consciência dessa disputa facilita ao progressismo, da candidatura Dilma, vencer o conservadorismo, da candidatura Aécio, dentro de nós

24/10/2014 - Desde o início dessa campanha eleitoral no Brasil, tenho escrito uma série de artigos, e a cada artigo que escrevo, percebo algo novo não só sobre a eleição, mas também sobre minha própria forma de encarar a eleição. Eu planejava escrever um artigo hoje de manhã, mas simplesmente algo estava faltando, e o tema não surgia, mas nesses casos eu sabia que durante o dia minha mente raciocinaria mesmo inconscientemente pra formar o tema deste artigo, e foi isso o que aconteceu. Aconteceram algumas coisas hoje que me fizeram perceber a importância do fato de que em todos nós há como uma "eleição interna". Nós, sem exceção, não somos isentos de ter um componente progressista e um componente conservador, que disputam de uma forma análoga às candidaturas do polo progressista, com Dilma, e do polo conservador, com Aécio. Vou contar algumas situações que me ocorreram hoje pra ilustrar o raciocício.

Pelos meus artigos, não é segredo pra ninguém que votarei em Dilma Rousseff, sendo que tenho um adesivo de sua candidatura no vidro traseiro do meu carro. Hoje eu estava dirigindo o carro, e ao entrar em um balão, deveria ter esperado um carro passar para depois eu entrar, mas acabei entrando antes desse carro, e o carro buzinou reclamando. De fato eu havia errado, e depois fiquei me sentindo culpado porque a pessoa que buzinou poderia relacionar o meu voto em Dilma com o ocorrido no trânsito. Obviamente é algo pequeno e não haveria razão que justificasse meu sentimento de culpa. Por isso, decidi pensar de onde realmente vinha a importância que eu estava dando ao caso. Para isso, citarei outro fato que ocorreu ainda hoje.

Costumo ter uma certa resistência a ver o horário eleitoral na televisão. Uma das razões tem a ver com o fato de que nesse horário eleitoral o nível de profundidade política é, na média, relativamente baixo, mas esse motivo não é suficiente para eu não vê-lo, uma vez que o horário eleitoral tem bastante audiência e acaba influenciando consideravelmente a eleição. Assim, sei que há outra razão para eu ter resistência a vê-lo, que é uma certa dose de angústia de ver o horário eleitoral das candidaturas mais conservadoras. No caso, hoje, minha resistência a assistir o programa eleitoral na TV estava relativamente alta, tanto que à propaganda da candidatura de Aécio, que veio primeiro, praticamente não assisti, sendo que depois assisti à propaganda da candidatura Dilma. Fiquei pensando depois por que minha resistência a ver o horário eleitoral da candidatura Aécio estava especialmente alta hoje, e percebi que era a mesma razão que me fazia sentir culpado quanto ao episódio do carro. Essa razão é a seguinte.

Creio que tanto a culpa pelo episódio do carro quanto a resistência a ver o programa da candidatura Aécio se derivam do meu componente conservador, que apesar de ser mais fraco que o progressista, se manifesta nesse tipo de situação. No caso do carro, a culpa não vinha de talvez ter perdido o voto da pessoa que buzinou, mas sim da possibilidade de eu ter feito aquilo de propósito, inconscientemente, para prejudicar a candidatura Dilma. Da mesma forma, a resistência a ver o programa eleitoral da candidatura Aécio viria do medo de que ver o discurso da candidatura conservadora aumentasse a força na minha disputa interna do meu componente conservador. Assim, eu não tinha medo dos argumentos que vinham de fora, mas da aceitação do meu componente conservador desses argumentos. Quando percebi essa dinâmica, ou seja, quando tomei consciência desse processo, pude enfraquecer meu conservadorismo, e meu progressismo ganhou força na correlação de forças interna. Assim, tive mais facilidade para vencer as resistências a assistir ao último debate entre Dilma e Aécio na televisão.

Chego a este último artigo antes do segundo turno fazendo uma sugestão a vocês, ou seja, que tentem perceber a eleição presidencial com um conjunto de milhões de "eleições" que ocorrem no interior de cada pessoa, e por que não no interior de cada partido, sindicato, central sindical, empresa, ONG e todas as outras instituições. Entretanto, como quem vota são as pessoas, e não essas outras entidades, quero focar na eleição interna das pessoas. Para o progressismo vencer mais facilmente dentro de nós, precisamos admitir que temos um componente conservador. Aí, conseguiremos dialogar melhor com ele, internamente, e quem sabe, convencê-lo e trazê-lo para o lado do progressismo, ficando nós com isso mais completos e menos divididos. Se não for possível ser 100% progressista, pelo menos sejamos o máximo possível, o suficiente para votar no polo progressista dessa eleição, representado pela candidatura Dilma. Clique aqui para se tornar um colaborador financeiro do culturapolitica.info.


Com Lula e Dilma, o Brasil está virando um país de classe média

A maioria dos eleitores e eleitoras se acostumou a pensar no Brasil como um país pobre, já que de fato o foi por séculos; isso está mudando, e é essa transformação do Brasil em um país de classe média que está em jogo no domingo

21/10/2014 - No noticiário e na linguagem sobre questões internacionais, é muito comum que se usem as expressões "países pobres" e "países ricos". É verdade que os tais "países ricos", se forem olhados de perto, vê-se que são países com uma enorme proporção de classe média, e pouca pobreza. Ou seja, em relação a sua população, são países de classe média. Portanto, questiono que o termo "país rico" seja usado para um país em que a imensa maioria das pessoas é de classe média. Entretanto, não questiono o termo "país pobre" para um país cuja maioria das pessoas é pobre. O Brasil, ao longo de séculos, foi de fato um país pobre. O que os governos Lula e Dilma estão fazendo com o Brasil é simplesmente transformá-lo em um país de classe média. Quem sabe o Brasil não pode se tornar o primeiro país a se assumir como um "país de classe média"?

No próximo domingo teremos eleições presidenciais no Brasil. A candidatura Dilma é a candidatura do polo progressista, que vai continuar o processo de transformação do Brasil de um país pobre em um país de classe média. A candidatura Aécio é a candidatura do polo conservador, que se vencer tende a interromper esse processo de transformação, com o Brasil correndo o risco de não se tornar de fato um país de classe média. É isso o que vamos decidir no domingo. Queremos viver em um país pobre ou de classe média? Queremos andar pelo país e ver bairros sem infraestrutura, com esgoto a céu aberto e pessoas passando fome? Ou queremos andar pelo país e ver a população morando em casas ou apartamentos de qualidade, com comida na mesa? Queremos ir a aeroportos e só ver descendentes de europeus? Ou queremos ir a aeroportos e ver descendentes de europeus, de africanos e de povos pré-colombianos, entre outros? Queremos que uma parte da população tenha carro e a maioria tenha um péssimo transporte público? Ou queremos que todos tenham um bom transporte público e que o carro seja só um complemento acessível a todos? Queremos o Brasil do passado ou o Brasil do futuro? É nessa ponte que estamos agora. Vamos em frente?

A candidatura Aécio tem como "argumentos" básicos o ódio ao PT e a qualquer entidade que ajude o povo a se organizar, e a suposta capacidade de sedução do candidato, que fala sem se prender à realidade concreta, e sim àquilo que se adapta à fantasia que quer que os eleitores e eleitoras acreditem. A candidatura Dilma tem como argumento básico que o processo de grande melhora nas condições de vida do povo que ocorreu nos últimos 12 anos tem que continuar, com mais Minha Casa Minha Vida, Mais Médicos, Pró-Uni, Ciência sem Fronteiras, Brasil Sorridente, Farmácia Popular e tantas outras iniciativas que melhoram a vida dos mais pobres e da classe média, com o aumento do poder de compra dos salários, a redução do desemprego e o crescimento da formalização da economia. É bom dizer que os ricos em geral não perderam dinheiro nos governos Lula e Dilma, e sua renda inclusive aumentou, mas aumentou menos que a dos pobres e da classe média. Ou seja, ficaram menos ricos em relação aos pobres e à classe média, e é isso o que pode causar um certo incômodo nos setores mais abastados. Mas é disso que se trata a mudança de padrão civilizatório que estamos passando, de superar as estruturas arcaicas do Brasil como país pobre para continuar conquistando o nosso Brasil de classe média. Clique aqui para se tornar um colaborador financeiro do culturapolitica.info.


Tem gente que gosta do governo e não gosta da Dilma

Apesar de ser um tema delicado, é preciso trazer à luz a existência desse tipo de eleitor(a), que não é antipetista, aprova o governo federal mas tem resistências à personalidade da Dilma

16/10/2014 - Outro dia eu estava conversando com um conhecido e puxei o assunto das eleições presidenciais, até porque faltam só 10 dias para as eleições e creio que é muito importante o debate. Perguntei em quem ele ia votar, e ele me disse que toda a sua família ia votar na Dilma, mas que ele ia votar no Aécio. Fiquei curioso sobre o porquê, e perguntei se ele não achava que a pobreza tinha caído muito mais rapidamente nos governos Lula e Dilma do que no governo FHC, se ele sabia que o Brasil tinha finalmente saído do mapa da fome, que o Aécio tinha sido presidente da Câmara de Deputados na coalizão do governo FHC, que 43 milhões de pessoas tinham subido da pobreza para a classe média e 36 milhões tinham saído da miséria nos governos Lula e Dilma, enfim, comentei o que pra mim são argumentos importantes pra se votar na Dilma e não no Aécio. Aí ele me disse que de fato o governo estava bom, que ele não tinha nenhuma rejeição pelo PT, que inclusive sempre tinha votado no PT, e que se o fosse o Lula votaria nele. Aí eu comecei a desconfiar de um motivo para ele não votar na Dilma. Perguntei: "Você não gosta da Dilma, né?". E aí ele admitiu que era isso mesmo, ele tinha uma certa antipatia pela pessoa da Dilma.

Fiquei pensando, depois, como a decisão sobre qual coalizão vai assumir a presidência, com centenas de milhares de postos em ministérios, agências reguladoras, empresas estatais, etc., poderia ser afetada pela empatia pessoal que a candidata, no caso Dilma, tem com parte do eleitorado. Eu pessoalmente escolho a candidatura pelo grau de progressismo que ela tem, ou seja, como ela se coloca no espectro político progressismo-conservadorismo. A eventual empatia que eu tenha com o candidato ou candidata tem até sua pequena influência, mas o fato é que pra muita gente tem uma enorme influência. Talvez isso tenha a ver com o fato de que existe uma forma de votar na qual a pessoa não necessariamente quer avaliar programas, projetos, propostas, histórico de realizações, gráficos, indicadores, e coisas assim, mas sim votar em uma pessoa que ela possa confiar e deixar o poder do Estado a cargo dela. Pode-se argumentar que é uma forma um pouco superficial de se votar, mas acho que é relativamente ampla a proporção de pessoas que votam bastante segundo esse parâmetro. Nesse aspecto, uma parte do eleitorado que avalia bem o governo federal pode acabar votando em Aécio, bem falante e sedutor.

E qual é então o objetivo deste artigo, ao trazer à luz este fato? Creio que é ajudar a que quem realmente tem uma certa antipatia pela pessoa da Dilma possa dar a esse aspecto o peso proporcional à influência que isso teria na atuação do Estado, se levarmos em conta que se Aécio vencer teremos um governo conservador, como todas as extensas consequências que isso teria para o povo brasileiro e latino-americano. Não quero deixar a impressão aqui de que eu mesmo não tenho simpatia por Dilma. Gosto da Dilma como pessoa sim, e sabem por quê? Porque é uma pessoa que foca nos resultados para o povo, foca na influência que aquilo que ela faz vai ter para o povo. Isso é algo difícil de conseguir, pois muitas vezes os políticos acabam tomando decisões que fazem sentido no seu ambiente político, mas que não são a melhor decisão para o povo. E eu gosto dessa objetividade da Dilma, que consegue inclusive não transparecer ódio por seus adversários políticos, o que talvez seja sua qualidade pessoal mais admirável, pois vamos ser claros, Aécio parece ter muito mais ódio por Dilma do que Dilma por Aécio. Quem vê os debates percebe isso claramente. Clique aqui para se tornar um colaborador financeiro do culturapolitica.info.


Eu quero um governo progressista para o Brasil! Vamos Dilma!

Lá no fundo, todos sabemos qual é a disputa que vale a pena vencer, a do progressismo sobre o conservadorismo; todos temos um pouco dos dois, mas Dilma aglutina o progressismo, e Aécio, o conservadorismo

13/10/2014 - Hoje eu estava pensando sobre qual assunto escrever o artigo. Aí escrevi um post no Facebook em que eu dizia: "Eu quero um governo progressista para o Brasil!". Pronto, achei o tema do artigo. Gente, existe uma bússola pra todas as disputas eleitorais no mundo, não importa em que país, estado ou cidade, que nos indica qual é a candidatura a cuja vitória devemos dedicar nossos corações e mentes. Nós, seres humanos que atravessamos eras glacias, superamos nossa fraqueza física com a força da mente e chegamos às estrelas, temos o progresso entranhado no nosso DNA. Se dependesse do conservadorismo ainda estaríamos em algum estágio ancestral de nossa evolução. Por isso, não tenho dúvidas sobre qual é a minha bússola nessas eleições. Liberdade, igualdade, fraternidade! O lindo lema da Revolução Francesa tão celebrada pelo fantástico Victor Hugo (leiam "Os Miseráveis", por favor) não me permite descansar enquanto Dilma Rousseff não vencer Aécio Neves nesse segundo turno presidencial. Vamos progressismo!

Por que Dilma é a candidata do progressismo? Nos governos Lula e Dilma 40 milhões de pessoas saíram da pobreza e subiram para a classe média. Além disso, 36 milhões de pessoas saíram da miséria. Finalmente saímos do mapa da fome da ONU. Quem viveu ou estudou o governo FHC, do PSDB, de cuja coalizão Aécio foi presidente da Câmara dos Deputados, sabe que a ascensão social não era nem de longe comparável. A queda da desigualdade não era nem de longe comparável. O aumento do salário mínimo era muito mais lento. Quando FHC deixou o governo, o desemprego era mais do dobro do que é agora, e o Brasil não tinha liberdade pra fazer sua política econômica porque tínhamos pedido um enorme empréstimo ao FMI, que por isso podia ditar o que fazer por aqui. Aécio fala do Plano Real, que foi feito no governo Itamar Franco. No primeiro governo FHC, a inflação ficou controlada, mas o resto do governo em geral foi ruim. E o segundo governo FHC, que começou já com a inflação controlada, teve resultados ainda piores, como a falta de energia elétrica, além de todos os outros problemas citados acima. Não que os governos Lula e Dilma tenham sido um mar de rosas, mas não tem comparação. Ou tem.

O conservadorismo fica repetindo a história do mensalão, mas hoje, nove anos depois, vemos claramente que em relação àquelas acusações não existiu mensalão, nem desvio de dinheiro do Estado, e sim caixa dois. A imensa maioria de tudo o que o PT e o governo foram acusados naquele episódio não se verificou verdadeiro, naquilo que foi talvez o assunto mais investigado da história do país. O que sim houve foi uma espetacular atuação da Polícia Federal nos governos Lula e Dilma, com 2.226 operações e 24.881 presos, enquanto que no governo FHC, da coalizão liderada pelo PSDB da qual Aécio era membro influente, foram 48 operações e 536 presos. Vejam de novo os números. Não tem comparação, de novo. Ou tem.

Sem falar na incrível descoberta do Pré-Sal, com posterior estabelecimento do marco regulatório e início da produção dos governos Lula e Dilma. O Pré-Sal desperta cobiça em todo o mundo, o que explica parte dos interesses mundiais na eleição brasileira. A aprovação do Marco Civil da Internet também é algo a ser comemorado intensamente pelo progressismo brasileiro, pois tornou o Brasil referência mundial pela democratização da gestão da Internet, que hoje é basicamente gerida pelos Estados Unidos, sendo que Edward Snowden e seus decumentos já mostraram que isso não parece uma boa ideia.

Gente, o Brasil, digam ou não os meios de comunicação conservadores do país, é hoje uma superpotência diplomática, que está perto de se tornar membro permanente do Conselho de Segurança da ONU e está organizando uma das iniciativas mais importantes da geopolítica mundial, a estruturação econômica, financeira e política do grupo BRICS, além de ter sido fundamental para a criação do G-20. O Brasil vem conseguindo em seguidas votações eleger seus indicados para liderar algumas das maiores instituições mundiais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC) e a FAO/ONU, pois recebe votos em massa especialmente dos países mais pobres de todo o mundo, que enxergam no Brasil essa superpotência diplomática que causa desespero em quem ainda gostaria que o Brasil fosse um anão diplomático. Essa eleição entre Dilma e Aécio provavelmente será apertada, então cada voto conta. Vamos lá, juntos, fazer o progressismo vencer o conservadorismo nesse segundo turno. A hora é agora. Tod@s na rua e nas redes! Clique aqui para se tornar um colaborador financeiro do culturapolitica.info.


Houve exageros, mas vitória de Aécio puniria principalmente o povo

É verdade que o campo de apoio a Dilma, inclusive a própria presidenta, exageraram nas críticas a Marina, mas a punição não pode recair sobre o povo em geral com um governo Aécio, que reduziria menos a pobreza e a miséria que um segundo governo Dilma

10/10/2014 - Em uma eleição presidencial há muita coisa em jogo, e as pessoas são expostas a tensões fortíssimas, pelas enormes consequências que a eleição terá para milhões de pessoas. Imaginem então a que pressões psicológicas são expostas as pessoas que lideram as candidaturas com mais chances de vitória, inclusive as candidatas e candidatos? Mesmo as pessoas que não são próximas aos partidos e às candidaturas mas que se importam muito com o resultado da eleição ficam nervosas, por todo o país, o que é óbvio nas redes sociais. Por isso, apesar de toda essa tensão, creio que temos que ter um pensamento para nos guiar nos momentos de maior tensão que é pensar em qual é a consequência para o povo brasileiro, para as cerca de 200 milhões de brasileiras e brasileiros, das ações que tomamos.

Vou tentar ser bem direto no que quero expressar. Por mais que o campo de apoio a Dilma tenha ficado muito nervoso com a possibilidade de Marina passar ao segundo turno e vencer Dilma, e por mais que essa parte do espectro político brasileiro, inclusive a presidenta Dilma, tenha exagerado nas críticas e na avaliação negativa do significado da candidatura de Marina, uma reação exagerada a isso por parte do campo de apoio de Marina e de suas lideranças pode levar a que quem seja principalmente punido seja o povo. O ritmo de redução da miséria e da pobreza tanto nos governos Lula quanto no governo Dilma foram muito superiores ao ritmo de redução da miséria e da pobreza no governo liderado pelo PSDB, na presidência de Fernando Henrique de 1995 a 2002, sendo que nessa coalizão de Fernando Henrique, Aécio era elemento muito influente, sendo inclusive presidente da Câmara de Deputados nos anos finais do mandato de Fernando Henrique.

Creio que, por isso, para que a razoabilidade possa ser reforçada neste momento eleitoral, o que é difícil pelas altas tensões em jogo, o campo de apoio a Dilma, e a própria presidenta, poderiam reconhecer publicamente os excessos nas críticas a Marina que ocorreram durante o primeiro turno, resguardando, é claro, seu direito de discordância política, até porque o exagero da crítica é uma característica que favorece os setores mais conservadores do espectro político. Eu mesmo, por exemplo, acho que exagerei um pouco nesse sentido. É preciso mostrar a Marina, ao seu entorno político e a suas eleitoras e eleitores que esse exagero foi, de verdade, percebido em geral pelo campo de apoio a Dilma e pela presidenta. Creio que essa atitude permitiria que o campo de apoio a Marina pudesse perceber mais claramente que é o povo, milhões de mulheres e homens deste Brasil, especialmente os mais frágeis, que seriam punidos com a vitória de Aécio e do PSDB, que é a candidatura preferida da grande maioria dos setores mais conservadores do espectro político brasileiro, dos meios de comunicação mais conservadores do país e das forças internacionais mais conservadoras a nível mundial neste segundo turno.

Quero terminar esse artigo, novamente, com um apelo para que todos os lados dessa disputa eleitoral, especialmente o campo de apoio de Dilma Rousseff e a própria presidenta, que teve 41,5% dos votos no primeiro turno, o campo de apoio a Marina e ela própria, que teve 21,3% dos votos e que é uma personalidade importantíssima nesse segundo turno, e por que não, o campo de apoio de Aécio Neves e ele próprio, que teve 33,5% dos votos no primeiro turno, e que é gente como a gente (quem não tem amigos conservadores?), com seus defeitos e suas virtudes, possam pensar no que é melhor para os mais de 200 milhões de seres humanos que vivem no Brasil, e tentar colocar isso como prioridade em relação às relações pessoais, desentendimentos e mesmo injustiças a que tenham sido expostas e expostos. Clique aqui para se tornar um colaborador financeiro do culturapolitica.info.


Dilma x Aécio; Lula x FHC; Jango x ditadura; Juscelino x UDN; etc.

A história mostra que mais além de partidos políticos, a principal disputa na política é entre progressismo e conservadorismo; no dia 26, o Brasil vai decidir se continua a arrancada rumo ao futuro que começou em 2002 ou se a interrompe, como aconteceu em 1964

07/10/2014 - Finalmente chegou a hora. Depois de uma abrupta guinada para o conservadorismo em 1964, gradualmente o Brasil conseguiu sair das trevas para chegar à predominância do progressismo a partir da eleição de Lula em 2002. Nestes 12 anos, o Brasil conseguiu avanços extraordinários, como retirar 36 milhões de pessoas da miséria e ascender 40 milhões de seres humanos para a classe média. Saímos do mapa da fome no mundo. Reduzimos o desemprego à metade com aumentos consideráveis de salários. Estamos conseguindo realizar o sonho de muitas gerações de brasileiros. Estamos deixando de ser um país pobre e virando um país de classe média! Não era isso o que queríamos?

Já houve outro momento assim. Entre 1945 e 1964, finalmente tivemos um período duradouro de democracia no Brasil. Ao longo destas duas décadas, passando pelos governos de Dutra, Getúlio, Juscelino e Jango (com alguns meses de Jânio antes deste) gradualmente as forças progressistas foram conquistando mais e mais votos, inclusive no parlamento nacional. Getúlio criou a Petrobras, Juscelino criou Brasília e Jango impulsionava as reformas de base. O Brasil era uma das maiores democracias do mundo. Mas isso acabou em 1964, quando o governo dos Estados Unidos, junto com os setores mais conservadores do Brasil, inclusive nos meios de comunicação e nas Forças Armadas, organizaram um golpe de Estado que acabou com a democracia e instaurou a predominância do conservadorismo no país que só veio a ser vencida com a eleição de Lula em 2002, depois de um crescimento do progressismo através do movimento pelas Diretas Já, da Constituição de 88 e do crescimento eleitoral dos partidos mais progressistas.

Chegamos a 2014, quando o conservadorismo apresenta um candidato sedutor, com boa lábia, talvez até simpático pessoalmente, mas que traz a carga da história às suas costas, com décadas sendo um elemento central no espectro mais conservador da política brasileira. Aécio foi presidente da Câmara de Deputados durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, na coalizão conservadora liderada pelo PSDB que governou o Brasil entre 1995 e 2002. Em 1994, o presidente Itamar Franco havia implementado o Plano Real, que estava controlando a inflação, e como Fernando Henrique Cardoso era ministro de Economia de Itamar, acabou surfando no fim da inflação e se elegendo presidente em 1994. De 1995 a 2002, apesar da inflação ficar controlada, o país assistiu ao aumento vigoroso do desemprego, com a venda a preços baixíssimos de inúmeras empresas estatais, inclusive de grande parte das ações da Petrobras. Do ponto de vista da redução da pobreza, o país caminhava lentamente, endividando-se exponencialmente em relação ao PIB e tendo que apelar a um empréstimo de grande valor do Fundo Monetário Internacional (FMI), que reduziu fortemente de maneira temporária a liberdade do Brasil para escolher sua política econômica.

Quando Lula venceu as eleições em 2002, iniciou um extraordinário esforço de comércio exterior, multiplicando nosso saldo comercial e reconquistando aos poucos a nossa liberdade para decidir nossa política econômica, ao devolver ao FMI o dinheiro que este havia emprestado. Ao mesmo tempo, o governo Lula colocou o Estado para aliviar o sofrimento de dezenas de milhões de pessoas que não tinham o suficiente para comer e viviam na miséria, enquanto diminuía o desemprego e aumentava o salário mínimo. A Petrobras aumentou exponencialmente de valor e a Caixa Econômica Federal passou a permitir a muito mais brasileiros e brasileiras ter uma casa própria, pois o volume de empréstimos habitacionais também se multiplicou. Um turbilhão de ascensão social tomou conta do Brasil, elevando para a classe média 40 milhões de pessoas, tirando o Brasil do mapa mundial da fome e tornando nosso país uma esperança para o mundo, que sofreu com a crise econômica mundial de 2008 e olhava para o Brasil tentando entender como nosso país passou pela crise gerando empregos e distribuindo renda.

O governo Dilma manteve a coalizão política e os princípios norteadores progressistas do governo Lula, com o aprofundamento da redução da miséria e da redução do desemprego, e a continuação do aumento da renda das famílias, mesmo com o crescimento do PIB sendo atingido pela maior crise econômica mundial em mais de 80 anos. Com Dilma, o Brasil protegeu a liberdade na Internet aprovando um marco legal para o setor que abre caminho para que o mundo crie instituições democráticas para gerir a Internet, para que ela não continue basicamente sendo gerida pelos Estados Unidos e alguns países próximos. Com Dilma, a Petrobras começou a gerar bilhões, que se tornarão trilhões de reais, para que o Estado democrático brasileiro possa investir naquilo que a sociedade ainda não consegue fazer sem ele, que é garantir o acesso a todos ao conhecimento em escolas e universidades, um atendimento à saúde para todos de boa qualidade, empréstimos para compra de casas e apartamentos, avanços na ciência e tecnologia, assistência emergencial a quem estiver na miséria e não tiver o que comer, crédito e seguro para a produção agrícola, policiamento e segurança pública, proteção do meio ambiente e tantas outras áreas.

Nossa democracia nos dá a maravilhosa possibilidade de somente eleger uma presidenta ou um presidente se esta ou este tiver mais de 50% dos votos, diferentemente de muitos outros países em que os sistemas políticos permitem que um chefe de governo chegue ao poder com 35% ou 40% dos votos. Assim, Dilma e Aécio disputarão essa maioria. O progressismo e o conservadorismo disputarão aos olhos da história, e os olhos da história somos nós. Junte-se à jornada daqueles que acreditam na Humanidade. Vamos progressismo! Vamos Dilma! Clique aqui para se tornar um colaborador financeiro do culturapolitica.info.


Paralelos entre o antipetismo e o anticorintianismo

Nos últimos anos, finalmente os corintianos conseguiram superar as barreiras para se discutir publicamente o anticorintianismo; está na hora dos petistas fazerem o mesmo

23/09/2014 - Sou corintiano desde pequeno. Até pouco tempo atrás, achava que a razão de eu ser corintiano era basicamente que meu pai também era corintiano. Eu estava enganado. Havia uma razão para meu pai ser corintiano, e essa razão também existia em mim. Ao longo da vida, sempre percebi que o Corinthians, mais do que qualquer time que eu conhecesse, despertava mais simpatia e mais antipatia, simultaneamente. Ou seja, ao mesmo tempo em que era o time individualmente com mais torcedores, era o que despertava uma antipatia proporcionalmente muito maior do que os outros times, pelo menos no estado de São Paulo, que eu conhecia melhor. Poderia-se argumentar que essa antipatia seria justamente pelo time ter mais torcedores, mas essa antipatia era proporcionalmente muito maior do que a superioridade quantitativa dos torcedores do Corinthians. Teria que haver outra explicação. Por que a tendência dos torcedores de futebol a se posicionar (com simpatia ou antipatia) era muito maior com o Corinthians do que com os outros times?

Bom, pelo título deste artigo, já sabem que creio que um fenômeno semelhante ocorre na política brasileira. Existe um partido político, o PT, que ao mesmo tempo em que individualmente tem a preferência do maior número de pessoas, atrai também um sentimento claramente específico e relativamente amplo de antipatia. Claro que em relação a outros partidos também há uma certa quantidade de antipatia. Mas nesse aspecto, nenhum se compara ao PT. Ou seja, tal como o Corinthians no futebol, é fato que os eleitores brasileiros têm uma tendência muito maior a se posicionar em relação ao PT, tendo simpatia ou antipatia, do que em relação a qualquer outro partido político. Isso explica por que se usa tanto os termos "anticorintiano" e "antipetista". Qual é a relação profunda entre eles?

Desde pequeno, ao mesmo tempo em que eu identificava a ampla existência do anticorintianismo, também percebia que o assunto dificilmente era abordado publicamente pelos corintianos. Parecia haver uma certa vergonha em abordar o assunto, como se os corintianos temessem que emergisse aquele motivo pelo qual é tão forte o anticorintianismo. Isso mudou de uns anos pra cá, tanto que os corintianos criaram um termo, os "anti", pra designar os anticorintianos. O assunto do anticorintianismo, com a maravilhosa ferramenta das redes sociais, acabou se tornando um assunto público, e os corintianos superaram, pelo menos um pouco, a vergonha de abordar o tema. Creio inclusive que o anticorintianismo até pode ter se reduzido no Brasil, o que é muito difícil de se afirmar com certeza. Mas o fato é que houve um importante progresso em direção à redução da antipatia específica ao Corinthians, ou assim espero. E em relação ao PT? Chegou a hora de acontecer algo semelhante. Isso significa que petistas, antipetistas e a sociedade em geral podem refletir e debater publicamente sobre o porquê dessa especificidade em relação ao PT. Os petistas poderiam também perder a vergonha de mencionar publicamente o antipetismo e questionar o que faz com que muita gente prefira praticamente qualquer partido (que tenha um número mínimo de assentos no parlamento) ao PT.

Claro que este é um fenômeno que, no mundo, não ocorre somente com o Corinthians, como time de futebol, e com o PT, como partido político. Qual é motivo profundo então do anticorintianismo e do antipetismo, e de todas as suas variações ao redor do mundo? A resposta ampla é complexa demais para este artigo, mas creio que uma pista para chegarmos a ela está em refletir sobre o medo inconsciente (ou consciente) que existe na sociedade, inclusive a brasileira, das instituições que organizam os setores sociais com menos poder na sociedade, dando-lhes mais poder. E qual é esse setor social com menos poder na sociedade? Por incrível que pareça, é simplesmente o povo, ou seja, a imensa maioria das pessoas, diferentemente de uma pequena parcela da sociedade que é extremamente poderosa. Assim, o "time do povo" e o "partido do povo" representam a transferência de poder de um setor em que esse poder está extremamente concentrado para setores mais amplos da sociedade. O medo dessa ampliação do círculo de poder na sociedade gera o anticorintianismo e o antipetismo. Isso inclui, obviamente, pessoas com pouco poder na sociedade, mas que preferem uma distribuição extremamente desigual do poder. Mas enfim, isso é uma discussão longa. Estão todos convidados a fazê-la! Clique aqui para se tornar um colaborador financeiro do culturapolitica.info.



As forças políticas profundas da eleição presidencial

Por trás das candidaturas de Dilma e Marina, existem forças que disputam a liderança do Estado brasileiro; quais são elas?

16/09/2014 - As candidaturas presidenciais são a parte mais visível da disputa política, mas existem outras estruturas, por trás das candidaturas presidenciais, que também disputam a política e que utilizam os partidos políticos e os candidatos como instrumentos nessa disputa. Ou seja, existe mais de uma "camada" na disputa política. Inclusive, é possível enxergar melhor essa "camada" oculta da política se observarmos a história chegando até antes das disputas eleitorais, pois as eleições democráticas, como mecanismo amplamente utilizado, em termos históricos, são um fenômeno muito recente.

Assim, proponho uma análise da política mais além de sua superfície, que são os partidos e os candidatos (os quais são a política mais visível, manifesta, e por isso tratada erroneamente como "a política"), e tentar analisar a política como um todo, que incluiria as forças sociais que dão sustentação a esses partidos e candidatos. Essas forças sustentadoras são as que disputam a política de uma forma pouco visível, mas muito influente. Ou seja, a sociedade tem muito mais consciência da disputa entre partidos e candidatos do que da disputa entre aquelas forças que dão sustentação aos partidos e candidatos. O problema disso é que votar em partidos e candidatos, sem haver consciência suficiente da disputa subterrânea entre as forças que lhes dão sustentação, é algo que pode levar o eleitor a votar contra seu próprio interesse. Este artigo se destina justamente a chamar a atenção para a necessidade de fazer a conexão entre os partidos e os candidatos e as forças que lhes dão sustentação (sem falar em fazer a conexão entre os partidos e os candidatos!).

Em termos práticos, deve-se analisar as duas principais candidaturas à presidência do Brasil nas eleições de 2014, que provavelmente disputarão o segundo turno. A candidatura Dilma Rousseff representa uma coalizão de partidos liderada pelo Partido dos Trabalhadores (PT). A candidatura Marina Silva representa uma coalizão de partidos liderada pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB). Mas essa não é uma designação extremamente rasa? Em primeiro lugar, por exemplo, Marina Silva não tem uma história no PSB, tendo entrado no partido para ser a candidata a vice de Eduardo Campos há cerca de um ano. Até que ponto é minimamente útil dizer que ela é a candidata de uma coalizão liderada pelo PSB? Ou seja, ela é a candidata de quem, além do PSB e outros pequenos partidos? É aí que quero chegar. E quanto a Dilma Rousseff? Ela é a candidata de uma coalizão liderada pelo PT, mas além das siglas que a apoiam, o que mais representa a candidatura de Dilma Rousseff?

Para analisar quem está por trás dessas duas candidaturas, é preciso levar em conta também o sistema eleitoral, porque sendo as candidaturas instrumentos, as forças políticas profundas não estão necessariamente interessadas na vitória de uma única candidatura específica (especialmente no primeiro turno), mas na realização de suas preferências políticas na gestão do Estado, o que pode ocorrer através da vitória de mais de uma candidatura. Assim, uma força política profunda pode apoiar mais de um candidato, de acordo com o sistema eleitoral e com o momento da disputa, especialmente em relação a ser o primeiro ou o segundo turno. Neste primeiro turno, além de Dilma e Marina, há outro candidato, Aécio Neves, com chances minimamente reais de ir ao segundo turno. Entretanto, cada vez mais cresce a percepção geral, inclusive no espectro político mais conservador, de que Marina tem consideravelmente mais chances de vencer Dilma no segundo turno que Aécio. Assim, as forças profundas mais conservadoras apoiam de forma cada vez mais sólida Marina, tendendo a levá-la ao segundo turno para então concentrar seus esforços somente em sua candidatura.

Enfim, quais são essas forças profundas da política, mais além de candidaturas ou partidos? Em uma eleição, evidentemente os meios de comunicação são fundamentais para embasar a votação dos eleitores. A estrutura dos meios de comunicação fora da Internet no Brasil ainda é extremamente influenciada pelo período da ditadura militar, que durou de 1964 até aproximadamente 1984, pois as principais empresas de radiodifusão, inclusive em relação às concessões estatais do espectro eletromagnético, se estabeleceram nessa época. Em relação aos jornais e revistas, a ditadura também influenciou fortemente, visto que muitos jornais e revistas foram fechados ou impedidos de funcionar durante a ditadura, enquanto que outros puderam seguir funcionando, apesar de sofrerem um pouco de censura. Com algumas exceções, surgidas após a ditadura, como a revista Carta Capital, que começou a ser publicada em 1996, a grande maioria das concessões estatais do espectro eletromagnético e dos jornais e revistas de grande circulação prefere a candidatura Marina Silva à candidatura Dilma Rousseff. Além disso, analisando a história dos meios de comunicação no Brasil, temos um indício de outra força política profunda que atua na disputa eleitoral e política brasileira.

Que força política profunda é essa? Uma vez que a estrutura dos meios de comunicação fora da Internet no Brasil foi forjada durante a ditadura, devemos buscar mais forças políticas profundas nas forças que sustentaram a ditadura militar. Hoje em dia, inclusive pela liberação de documentos que anteriormente eram confidenciais do Estado dos Estados Unidos, sabemos que este Estado teve uma participação muito influente no golpe de Estado que derrubou o presidente João Goulart e acabou com a democracia do Brasil em 1964. Posteriormente, o Estado dos Estados Unidos foi fundamental para a manutenção da ditadura por décadas, com a justificativa de que isso seria necessário para evitar que o Brasil caísse na órbita soviética. Enfim, já identificamos então, como forças políticas profundas, os meios de comunicação estruturados durante a ditadura com o apoio do Estado dos Estados Unidos.

Que outras forças políticas profundas existem? Os setores que são proprietários das grandes empresas no Brasil, tanto no setor agrícola, no setor industrial e no setor de serviços (como os bancos), ou seja, as grandes empresas em geral (que têm sua propriedade extremamente concentrada), costumam agir para manter esse poder econômico e financeiro, e assim, também influenciam na disputa política. Através dos meios de comunicação, influenciam pagando a veiculação de propagandas, sendo que apesar dessa veiculação levar em conta o alcance de público dos meios de comunicação, também leva em conta o grau de alinhamento aos interesses mais amplos dessas grandes empresas. Outra forma de influência deste setor é através do financiamento de campanhas eleitorais de coligações, partidos e candidatos. Mas este setor, dos proprietários das grandes empresas, é formado não só por brasileiros, mas também por estrangeiros. Aí se evidencia a conexão que existe entre o Estado dos Estados Unidos, os Estados de outros países, especialmente da Europa ocidental, e os interesses das grandes empresas que operam no Brasil e no exterior.

Outras forças políticas profundas são os sindicatos, movimentos populares, ONGs, organizações religiosas, pequenas empresas, e poderíamos listar uma série destas forças políticas profundas, mas o mais importante a salientar é que são a teia de interesses de organização de massa no país. Em relação aos partidos políticos, há alguns que por sua identificação simbólica, sua estrutura orgânica e sua relação com os movimentos sociais e populares acabam se tornando uma força política mais profunda que outros partidos. No Brasil, em termos de partidos com considerável número de assentos no parlamento, estes partidos são o PT e o PCdoB.

Por trás de todas estas forças mencionadas, existe uma variável determinante na influência delas que é o grau de consciência da existência delas no eleitorado. Quanto mais o eleitor puder perceber os interesses dessas forças por trás das candidaturas e dos partidos, mais este eleitor vai poder relacionar o seu voto com seu próprio interesse (do eleitor). Assim, podemos perceber que os meios de comunicação estruturados durante a ditadura, assim como as grandes empresas brasileiras e estrangeiras, em geral apoiam a candidatura de Marina Silva. Os Estados dos países dificilmente tomam partido explícito em eleições de outros países, apesar de que é possível que de maneira encoberta o façam. Em relação a sindicatos e movimentos populares, em geral estes apoiam no primeiro turno, ou apoiariam no segundo turno, a candidatura Dilma. Em relação a ONGs e pequenas empresas, há uma divisão maior entre as duas candidaturas. Em meio a tudo isso está o eleitorado, que terá que decidir se quer o Estado brasileiro sendo liderado, com Marina, pelo interesse das grandes empresas brasileiras e estrangeiras, pelos meios de comunicação estruturados durante a ditadura e por Estados de outros países, especialmente dos Estados Unidos e da Europa ocidental, ou se quer o Estado brasileiro sendo liderado, com Dilma, pelos partidos políticos mais orgânicos e populares do Brasil, que são o PT e o PCdoB, pelos sindicatos, movimentos populares, e pelas entidades da sociedade civil organizada, inclusive de pequenos empresários. Claro que estas duas alternativas de estruturas de Estado seriam apenas "lideradas" por essas forças, sendo que todas essas forças, algumas mais, algumas menos, algumas muito mais, algumas muito menos, influenciariam no Estado brasileiro. Mas a decisão sobre que forças políticas profundas liderarão o Estado brasileiro está na mãos do eleitorado do país, que se pronunciará em 5 de outubro e 26 de outubro de 2014. Clique aqui para se tornar um colaborador financeiro do culturapolitica.info.



Eleições no Brasil e no Uruguai têm disputa básica semelhante

Com eleições gerais quase simultâneas, a similaridade entre as dinâmicas eleitorais mostra que, muito além das fronteiras nacionais, o que está em jogo é se a maioria do eleitorado vai perceber as ilusões que o conservadorismo tenta fazer passar como progressismo

03/09/2014 - Cada país, em suas eleições nacionais, entra em um alvoroço absolutamente compreensível e saudável, referente à campanha e ao debate eleitoral. Surge uma infinidade de questões específicas, em relação a projetos, obras, programas, propostas, casos de corrupção, princípios ideológicos, morais, religiosos, etc. Entretanto, quando se observam as eleições nos países em geral, percebe-se que, além de tudo isso, existe um substrato comum às eleições, especialmente acentuado quando se trata de países vizinhos. Nas eleições do Brasil e do Uruguai, que estão acontecendo quase simultaneamente, este fenômeno é bastante claro, e nos permite perceber qual é esse substrato comum, que é a força mais influente nas eleições de forma global.

Nas eleições no Uruguai, que situação temos? Há 10 anos está no comando do Estado, atualmente com o presidente José Mujica, a Frente Ampla (FA), partido político progressista, que substituiu partidos conservadores na função. Que situação temos no Brasil? Há 12 anos está no comando do Estado, atualmente com a presidenta Dilma Rousseff, o Partido dos Trabalhadores (PT), partido político progressista, que substituiu partidos conservadores na função. Em ambos os países, a situação econômica e social melhorou muito expressivamente nesse período. Em ambos os países, os setores mais conservadores contam com o fato de que já faz uma década ou mais que o progressismo está no poder, e portanto, o discurso da "mudança" já pode ser feito, desde que os eleitores não percebam que essa "mudança" seria de progressismo para conservadorismo.

Para tentar fazer com que os eleitores não percebam a possibilidade de volta do conservadorismo, este setor do espectro político investe em candidatos e candidatas que de alguma forma não pareçam conservadores. No Uruguai, o principal candidato conservador, Luis Alberto Lacalle Pou, do Partido Nacional, é relativamente jovem, tem 41 anos, contrastando com a idade de 74 anos do candidato progressista, Tabaré Vázquez, da FA. No Brasil, o artifício utilizado para esconder o conservadorismo da principal candidatura presidencial dos setores mais conservadores do Brasil, a de Marina Silva, do Partido Socialista Brasileiro (PSB), é dar a impressão de que Marina não teria uma base de governo no parlamento brasileiro. Assim, ela não precisaria negociar com os políticos, podendo simplesmente indicar a pessoa que ela considera mais adequada para cada cargo.

Assim, tanto no Uruguai quanto no Brasil, vemos que é uma tarefa essencial dos setores mais progressistas mostrar as características conservadoras das candidaturas de Lacalle Pou e Marina Silva, expondo qual é a disputa mais influente nessas eleições nos dois países. De um lado, o progressismo, com Tabaré Vazquez e Dilma Rousseff, com foco na utilização do Estado para resolver as questões que a sociedade ainda não consegue resolver sem ele, como a educação e a saúde massivas, a infraestrutura energética e da Internet, a gestão ambiental, a segurança pública, a pesquisa científica, o crédito habitacional, a moeda como meio de pagamento, entre outras. De outro lado, o conservadorismo, com Lacalle Pou e Marina Silva, com foco na utilização do Estado para manter privilégios econômicos, políticos e culturais, com a desculpa de que tudo isso seria para o bem da sociedade, "só que não", como se diz hoje em dia. Clique aqui para se tornar um colaborador financeiro do culturapolitica.info.